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Em nove dias, governo Bolsonaro voltou atrás pelo menos sete vezes

11/01/2019

Histórico de idas e vindas envolve livros didáticos, reforma agrária e até a queda de nomeado que não tinha competência para o cargo

Escrito por: Thais Reis Oliveira


A julgar pelos primeiros dez dias, o mandato do presidente Jair Bolsonaro (PSL) promete muitas idas e vindas. O novo governo voltou atrás até agora em pelo menos sete decisões que foram mal planejadas e/ou que tiveram repercussão ruim.

O histórico mostra problemas de relação no alto escalão do governo. Algumas das crises são motivadas pela inabilidade de nomeados, como no caso da presidência da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), cujo escolhido deixou o cargo em menos de uma semana.

Outros problemas são gerados pelo apetite e pressa de alguns por cargos e altos salários, como no caso da nomeação do filho do General Mourão (apelidado de “nepotismo técnico” até por apoiadores) para um cargo comissionado que triplicou seu salário. Funcionário de carreira há anos do banco estatal, o filho do vice-presidente não precisou esperar nem duas semanas para receber o aumento astronômico que recebeu assim que o pai subiu ao poder.

Veja, abaixo, as primeiras trapalhadas que o Brasil já assistiu na era Bolsonaro.

1. Livros didáticos
Um edital do Plano Nacional do Livro Didático, publicado no dia 2, abria brechas para a distribuição de livros sem referências bibliográficas. O caso veio a tona na quarta feira 9, e o governo anulou a mudança após uma saraivada de críticas.

Outras alterações causaram polêmica: o parágrafo que exigia que as obras deveriam “retratar adequadamente a diversidade étnica da população brasileira, a pluralidade social e cultural do país” foi eliminado. Também ficou de fora o veto a propagandas e a erros de impressão e revisão.

O ministro Ricardo Vélez atribuiu as alterações ao governo Temer, mas o antecessor, Rossieli Soares (agora no governo Doria), nega qualquer ordem do tipo. Vélez foi anunciado em 22 de novembro, e trabalhava em conjunto com a equipe de transição desde o dia 3 de dezembro.

2. Economia
Essa área é talvez a mais sensível a desencontros entre o presidente e a sua equipe. Em entrevista no dia 4 de janeiro, Bolsonaro anunciou a assinatura de um decreto que faria subir a alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e o secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, negaram tudo horas depois.

3. Comércio exterior
O homem escolhido por Bolsonaro para a chefia da Apex caiu em menos de sete dias. Ex-assessor do PSL, o publicitário Alex Carreiro cumpriria um mandato de quatro anos à frente da agência, dedicada à ponte entre empresas brasileiras e o mercado internacional exterior.

Nos bastidores, comenta-se que ele não tinha currículo para a vaga. Sequer fala inglês fluentemente, exigência estrita para o cargo. No Twitter, o chanceler Ernesto Araújo anunciou que foi o próprio Carreiro quem pediu para sair, e indicou o embaixador Mario Vilalva para substituí-lo.

Apesar do anúncio de Araújo na noite de quarta-feira, Carreiro cumpriu expediente normal no dia seguinte, numa tentativa de medir forças com o chanceler e continuar no cargo. À noite, uma foto de Bolsonaro com Araújo e Mario Vilalva sinalizou a queda definitiva do antigo presidente.

4. Reforma agrária
Cinco dias depois de paralisar a política em todo o país, o Incra voltou atrás. Em memorando enviados às 30 superintendências regionais, o chefe da entidade afirmou que não havia qualquer ordem do governo federal para “suspender as ações das políticas de reforma agrária e de ordenamento fundiário”.

Também foram revogados dois memorandos que suspendiam todas as aquisições de terras para assentamentos rurais. Entre os servidores do Incra, a sensação é a de que o governo está “perdido”.

O caso foi revelado em primeira mão pelo Repórter Brasil, leia a matéria na íntegra.

5. Casa Civil
A ‘despetização’ prometida por Onyx acabou prejudicando a pasta e paralisou até mesmo a dança das cadeiras nas contratações. Para conter o estrago, o governo recontratou alguns servidores.

6. Base militar para os EUA
A ideia de instalar uma base militar americana no Brasil era defendida por Bolsonaro desde muito antes das eleições. Em março do ano passado, ele disse a um repórter do New York Times: a Base de Alcântara “vai ser pra vocês [sic]”.

Passada a posse, a ideia foi recebida com entusiasmo pelo o secretário Mike Pompeo e reiterada por Bolsonaro em entrevista ao SBT. Como a ideia pegou mal entre os militares, Bolsonaro fez chegar a eles a desistência.

À imprensa, o general Augusto Heleno, chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), disse que o plano não passou de ‘auê’ sem motivos concretos.

7. Bancos
Outro recuo ocorreu na Caixa Econômica Federal. Depois de afirmar, durante a posse, que a classe média teria que pagar mais no crédito imobiliário, o presidente do banco, Pedro Guimarães, recuou e negou que vá aumentar os juros. A ver.

 

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