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Grupos de trabalho em que mulheres são maioria tendem a ser mais eficientes

01/01/2011

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O que fazer para criar um grupo de trabalho eficiente? Para responder a pergunta, Anita Woolley e Thomas Malone, pesquisadores do Massachussetts Institute of Technology e da Carnegie Mellon Univesity, respectivamente, estudaram 699 pessoas em diferentes equipes, aplicando testes e jogos de negociação para analisar o desempenho dos diferentes conjuntos profissionais. A conclusão a que chegaram, publicada recentemente na revista especializada Science, é que grupos com maior número de mulheres são os que têm mais inteligência coletiva, termo usado pelos dois para definir o desempenho coletivo na realização de uma tarefa.

O doutor em Sociologia do Trabalho Giovanni Alves fala sobre grupos de trabalho com mulheres e inteligência coletiva

A explicação, segundo os cientistas, é o melhor desempenho feminino no item sensibilidade social. Em entrevista ao Correio, Anita Woolley conta que essa preocupação em relação à emoção do outro influencia no trabalho em grupo. “As diferenças entre homens e mulheres afetam a dinâmica das equipes de trabalho. Há estudos que mostram isso, e esse é um deles. É fato: as mulheres têm uma inteligência social maior que a dos homens. Isso significa que elas são melhores na linguagem corporal, o que acaba aparecendo na maneira como elas trabalham. E quando elas estão em um grupo, elas ajudam a melhorar a performance da equipe, porque são mais sensíveis”, diz.

O chamado sexto sentido feminino seria, portanto, na opinião das pesquisadoras, uma maior sensibilidade social. “Elas geralmente ‘pegam’ rápido a informação de outra pessoa só olhando para ela. No trabalho, isso quer dizer que elas antecipam como os outros vão reagir e, isso ajuda muito nas relações”, afirma Anita.

E haja sensibilidade no trabalho do administrador Flávio Alcântara, 29 anos. No estúdio de arquitetura em que trabalha, são sete mulheres e dois homens. “Elas percebem facilmente quando eu estou triste ou mais feliz. E isso é muito interessante na hora de fechar um negócio”, conta Flávio. Ele inveja a forma como as companheiras lidam com os contratempos. “Cada uma tem um jeitinho para convencer, usando a delicadeza e a atenção. E elas conseguem!”, espanta-se o administrador.

Às colegas, Flávio só tece elogios. “Elas têm mais senso de união, de grupo. Dá para sentir que existe uma proximidade maior e, desse jeito, o clima no trabalho é bem harmônico.” Ele acredita que nem mesmo a tensão pré-menstrual atrapalha o relacionamento. “A gente é tão cúmplice que elas avisam quando a TPM vem, e eu já fico sabendo como tratá-las. Esse é um dos segredos”, aconselha.

Companheira de trabalho de Flávio, a arquiteta Helena Tourinho, 25 anos, acredita que as características femininas no trabalho aparecem de maneira mais saudável quando há pelo menos um homem por perto. “Eles são mais racionais e ganham com o tempo. Nós, mulheres, ganhamos com a percepção. É uma soma positiva para todos”, analisa a arquiteta. A colega Renata Melendez concorda: “Sempre convivi com muitas mulheres no ambiente de trabalho e acho que tudo flui melhor. Mas o importante é ter uma equipe equilibrada, com homens também”, defende.

A psicóloga Luiza Ricotta aponta a diferença entre mulheres e homens na hora de trabalhar: as mulheres geralmente desenvolvem várias atividades ao mesmo tempo, já os homens trabalham de maneira mais clara, mais pragmática. “Todo grupo tem tarefas e metas. Porém, o mais importante é ter senso de colaboração. Cada sexo é de uma maneira, e o espírito coletivo tem que ser positivo para bons resultados no trabalho”, avalia. A presença masculina, para a psicóloga, dá um sentido mais prático ao ambiente de trabalho, e a feminina, mais colaboração. “Dessa forma, o nível de inteligência coletiva aumenta”, afirma.

No trabalho do cientista político Marcelo Pimentel, 22 anos, o número de mulheres também é maior que o de homens: elas são 15 e eles, nove. Ele acredita que as mulheres são mais hábeis socialmente e atentas aos colegas. “Uma vez mudei o corte de cabelo, raspando a cabeça. Meus colegas olharam, mas não falaram nada. Mas as meninas na hora vieram me perguntar sobre a mudança”, lembra.

Mariana Lucena, 28 anos, que trabalha na mesma empresa de consultoria política de Marcelo, concorda com o colega. “Acho que mais do que perceber o que o outro sente, a gente tem um papel de temperar os grupos de trabalho”, diz. No entanto, ela não gosta quando vê grupos só de mulheres. “Acontece que a gente tende a se estranhar e, às vezes, ter mais problemas. Os homens são muito mais simples, mais diretos e mais objetivos. O sucesso do grupo pode vir quando o homem e a mulher se complementam”, opina Mariana.

Preconceito
O doutor em sociologia do trabalho Giovanni Alves avalia positivamente os novos grupos e métodos de gestão. “O que a pesquisa de Woolley e Malone mostra é a importância do tratamento subjetivo, da inteligência coletiva e, claro, da inteligência emocional”, explica. Ele chama a atenção para a natureza feminina, que pode se revelar extremamente competitiva em determinadas situações. “Se for uma repartição composta só por mulheres, a competição entre elas aparece, porque uma vai querer mostrar que é melhor que a outra. É da natureza feminina e é preciso entender isso”, alerta.

Outro ponto importante, segundo Alves, é que as mulheres se fragilizam mais que os homens. “Infelizmente, esse é o calcanhar de Aquiles delas, o que gera o preconceito cultural.” O especialista ressalta que a característica não impede que elas desempenhem suas funções com competência. Por exemplo, alguns duvidam que a presidente argentina, Cristina Kirchner, consiga terminar bem o mandato porque o marido morreu. É como se, sem o homem, a mulher não fosse capaz. O que é uma grande mentira”, analisa.

A engenheira Isabela Ribeiro, 39 anos, vive uma experiência oposta aos grupos apontados como mais eficientes pela dupla de pesquisadores norte-americanos. Devido ao ramo profissional que ele escolheu, ela costuma trabalhar entre vários homens. Tudo começou na época da faculdade, pois na turma de 50 alunos, havia somente cinco mulheres. Hoje ela é conselheira do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Distrito Federal, e é a única mulher entre 21 homens.

Isabela conta que sempre precisou vencer resistências para conquistar seu espaço. “Para que abrissem espaço para mim, sempre precisei mostrar conteúdo e estudo. Depois disso, você tem que mostrar bom desempenho. Só então passam a te respeitar mais”, conta. Segundo ela, a sensibilidade ajuda muito e pode ser um diferencial profissional. “Por sorte, o mercado está bem mais aberto hoje. Os grupos de trabalho com mulheres se destacam porque, além de ter sensibilidade para lidar com os problemas, nós estamos cada vez mais primorosas”, gaba-se.

Palavra de especialista
SITUAÇÃO DESIGUAL

“A gente tem que comemorar as conquistas femininas, mas é importante lembrar que há muita coisa ainda a ser feita. A mulher enfrenta uma jornada dupla. É ela quem fica responsável pelo filho, quando ele nasce. E essa situação no Brasil cria a necessidade de que ela articule família e trabalho. Sempre ela. É uma situação muito desigual, pois além de ter essa conciliação entre trabalho e família, ela ganha menos que os homens, mesmo que ocupe as mesmas posições no trabalho. Então acredito que é muito bom ter essa quantidade de mulher no mercado de trabalho e é ótimo ver que aumenta significativamente na área do direito. Só que, repito, ainda temos muito trabalho pela frente para igualar as condições de homens e mulheres”

Crsitina Bruschini, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas

Fonte: Correio Braziliense

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