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Mulheres trabalhadoras contra Walmart que ganhou uma estranha vida própria

01/01/2011

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A defesa da Walmart frente uma ação coletiva que acusava a empresa de práticas discriminatórias contra suas mulheres trabalhadoras lança nova luz sobre a biologia das megaempresas privadas. A companhia argumenta que com “sete divisões, 41 regiões, 3.400 estabelecimentos comerciais e mais de um milhão de empregados”, as experiências dos empregados individuais são demasiado distintas para permitir juridicamente uma ação coletiva. O artigo é de Barbara Ehrenreich.

Barbara Ehrenreich – Sin Permiso

O que é a Walmart, em um sentido estritamente taxonômico? Considerando somente suas dimensões, seria fácil tomá-la por uma nação: em 2001, suas receitas anuais eram iguais ou maiores a de 22 países. Se reuníssemos todos seus empregados – 1,4 milhões só nos Estados Unidos – diríamos que é uma grande cidade. Mas também é possível ver a Walmart e outras empresas de alcance planetário, não como conjuntos agregados de pessoas, mas como formas independentes de vida, como espécies de superorganismos.

Essa parece ser a conclusão da decisão de Citizens United v Federal Election Commission, onde a Corte Suprema dos Estados Unidos, incorrendo em delirante antropomorfismo, resolveu que as grandes corporações empresariais são realmente pessoas e que, por essa razão, gozam de liberdade de expressão e do direito de fazer contribuições financeiras ilimitadas para campanhas eleitorais. Vocês dirão que a noção de personalidade já se degradou a ponto de resultar irreconhecível pelos ativistas “pró-vida” que a estenderam a células individuais como os zigotos. Mas a Corte deve ter pensado que seria discriminatório atender a razões de tamanho: se uma célula microscópica pode ser uma pessoa, por que não um brontossauro, um tsunami ou uma empresa transnacional?

Mas a defesa da Walmart frente uma ação coletiva que acusava a empresa de práticas discriminatórias contra suas mulheres trabalhadoras – Dukes x Walmart – lança nova luz sobre a biologia das megaempresas privadas. A companhia argumenta que com “sete divisões, 41 regiões, 3.400 estabelecimentos comerciais e mais de um milhão de empregados”, as experiências dos empregados individuais são demasiado distintas para permitir juridicamente uma demanda “coletiva”. A Walmart, em outras palavras, é demasiado grande, demasiado multifacetada e demasiado diversa para ser juridicamente demandada.

Assim, a Walmart é realmente uma pessoa, uma pessoa sem sistema nervoso central, ou ao menos sem controle central das distintas partes de seu corpo. Existem pessoas assim, admito, mas não há dúvida que, quando a Suprema Corte declarou que as corporações empresariais eram pessoas, não se referia a “pessoas com enfermidades neuromusculares degenerativas agudas”.

Para quem nunca visitou um estabelecimento da Walmart, direi que a empresa não é um conglomerado de boutiques governadas por divas egoístas. Todos os detalhes, desde as políticas de pessoal até a equipe de ferramentas de cada planta, estão determinados pelo quartel general da empresa em Bentonville. Um exemplo: em 2000, trabalhei durante três semanas no departamento de roupa feminina de um Walmart (isso me permite agora ser parte da ação coletiva contra a empresa por discriminação de gênero, ainda que a possibilidade de uma indenização com uma cifra de vários dígitos, creio, não tenha influído em meu juízo sobre o assunto). No curso do meu trabalho, tive a oportunidade de fazer várias sugestões ao meu supervisor. Por exemplo: que as calças de tamanho extragrande não fossem exibidas junto ao chão, porque as mulheres que usam esse tamanho não poderiam pegá-las sem precisar de ajudar para voltar a se levantar. Boa ideia, me disse, mas cabe a Betonville decidir onde se colocam as calças ou qualquer outro produto.

Muitas coisas mudaram desde que eu trabalhei na Walmart. A companhia lutou para melhorar sua tradicional imagem de empresa exploradora.  Empenhou-se em dizer que promoverá mais as mulheres. Mas uma coisa que certamente não fez foi reestruturar-se como um coletivo anarquista. Betonville segue imperando absolutamente tanto sobre os direitos dos estabelecimentos como sobre os “associados”, o termo eufemístico empregado por Walmart para referir-se aos seus sempre mal retribuídos trabalhadores.

De modo que, se Walmart é uma forma viva, é de uma espécie inclassificável. Come, devorando cidade após cidade, às vezes mudando de nome: Walmex no México, Asda no Reino Unido. No entanto, na defesa apresentada na ação Dukes vs. Walmart, a empresa alega não ter ideia do que está fazendo. Isso poderia ser uma metáfora do capitalismo, ou um indício de que está em curso uma invasão alienígena exitosa. A única coisa certa é que, se a Corte Suprema decidir a favor da Walmart, experimentaremos uma proliferação dessas criaturas: “pessoas” monstruosamente superdimensionadas que insistem em sua incapacidade para controlar suas ações.

(*) Barbara Ehrenreich é presidente da “United Professionals” e autora, recentemente, de “This Land is Their Land: Reports From a Divided Nation”.

Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Maior

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