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Desaceleração da economia será entrave para reajuste salarial, aponta Ipea

01/01/2011

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Coordenador prevê disputa “dura” entre trabalhadores e o empresariado na definição dos reajustes salariais este ano

A preocupação com os índices de inflação e da taxa de juros vem tomando espaço nas discussões do dia-a-dia dos trabalhadores e é tratada com destaque na imprensa. O próprio governo federal sinaliza que o desafio para 2011 é o de controle da inflação, para estimular o crescimento do Brasil a uma taxa entre 4% e 5% nos próximos anos.

O último dado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que no mês de maio houve redução da inflação, que ficou em 0,47% – medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A inflação acumulada nos últimos 12 meses registra 6,55%.

Para compreender detalhes da política monetária do governo Dilma e os desdobramentos das medidas para conter a inflação, a Radiogência NP entrevistou o coordenador do Grupo de Análises e Previsões do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Roberto Messenberg. Entre outras análises, ele prevê uma disputa “dura” entre trabalhadores e o empresariado na definição dos reajustes salariais, que ocorrerão num período de desaceleração da economia.

Radioagência NP: Roberto, há diferenças na política monetária do governo Dilma Rousseff para conter a inflação em relação aos governos anteriores?

Roberto Messenberg: O Banco Central nas gestões anteriores se fixava principalmente na taxa de juros para calibrar a demanda de consumo, de tal forma que se tivesse a inflação no centro da meta. O Banco Central na gestão da Dilma está usando uma outra série de instrumentos, em função da nova conjuntura internacional. Nós temos uma realidade agora em que tem muita liquidez no mercado internacional, as taxas de câmbio ficaram muito voláteis e a expansão do dólar está provocando a sua desvalorização e, portanto, uma valorização de moedas em outras regiões.

Radioagência NP: A que se deve essa mudança de cenário?

RM: Porque antes o regime de metas de inflação se centrava exclusivamente na busca do centro da meta de inflação e esquecia todo o resto. Isso nos levou a esta enorme crise, no final de 2008. Porque apesar da inflação estar sob controle, se teve uma alavancagem brutal nos mercados de crédito, que fizeram com que houvesse bolhas especulativas nos preços dos ativos. O estouro dessas bolhas levou à crise – que sofremos as consequências até hoje. Então os bancos centrais do mundo inteiro passaram a se preocupar não apenas com a taxa de inflação, mas também com a taxa de câmbio e com as bolhas nos diversos mercados de crédito.

Radioagência NP: E quais seriam essas medidas adotadas no atual governo?

RM: O Banco Central está lançando mão de acumulação de reservas, por um lado, pra contemplar os problemas da valorização excessiva do câmbio. Ele está lançando mão de IOF – Imposto sobre Operações Financeiras – pra entrada de capital estrangeiro, que essa forte entrada no fluxo de dólares faz com que o sistema financeiro tenha liquidez pra poder ampliar o crédito ao consumo. Então isso são fontes independentes da taxa básica de juros que se tem na economia, que pode causar bolhas. Então como essas medidas têm a capacidade de arrefecer a demanda de consumo, se está menos dependente da taxa básica Selic pra conter a expansão da demanda de consumo na economia.

Radioagência NP: Qual o impacto dessas mudanças na vida dos trabalhadores?

RM: Do ponto de vista do trabalhador, as medidas são boas. Porque se você se baseia exclusivamente na taxa de juros Selic para efeito de contenção de demanda agregada, você derruba de uma forma indiferente toda e qualquer atividade na economia. Mesmo naqueles setores onde está tendo desemprego, por exemplo, onde está tendo um desempenho que poderia ser melhor com uma demanda mais elevada. Então essas medidas contemplam de fato os mercados que estão com maior aquecimento, de super emprego. E deixa, portanto, que os setores que estão com deficiência de emprego possam continuar crescendo, e isto absorve mão de obra e mantém o emprego elevado.

Radioagência NP: Como fica a relação entre a inflação e as pautas trabalhistas de aumento de salários?

RM: Como a taxa acumulada de inflação foi elevada, porque ela vai pegando as taxas do período mais alto agora e combina justamente com as taxas que teremos daqui para frente, que provavelmente serão mais altas do que as dos meses do ano anterior. Então, a taxa acumulada estará se elevando. E é capaz que os trabalhadores queiram reivindicar a taxa acumulada, que estará subindo, para efeito de reajuste salarial. Agora o que acontece é que a economia está se desacelerando forte. O âmbito de produção industrial mostra isso, o PIB veio abaixo da mediana das expectativas de mercado, uma forte desaceleração de consumo. Então, você vai ter uma trajetória de desaceleração econômica que vai estar mais acentuada justamente no momento que os dissídios acontecerem, esses dissídios importantes de diversas categorias de trabalhadores em setembro agora.

Radioagência NP: Então, como será o impacto do aumento salarial e as negociações entre trabalhadores e empresários para isso?

RM: Eu não vejo um impacto grande de aumento dos salários acertando a inflação, porque eu acho que a desaceleração econômica vai fazer com que os trabalhadores e os empresários entrem em uma negociação que será mais dura. E o nível de atividade vai fazer com que a realidade dos mercados acabe prevalecendo.

Fonte: radioagência NP / Vivian Fernandes

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