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Trabalho escravo é uma verdade inconveniente

01/01/2011

Escrito por:

Marca espanhola Zara é suspeita de utilizar trabalho escravo

Se o povo soubesse como são feitas as leis e as salsichas, não dormiria tranquilo.

A frase é atribuída a Otto von Bismarck, chanceler alemão no século XIX. Mas poderia ser hoje estendida às roupas de grife.

Na semana que passou, vieram a público os resultados de operações de fiscais que descobriram o uso de trabalho escravo na confecção da badalada marca Zara, entre outras.

As roupas da empresa espanhola vinham sendo produzidas no país por imigrantes bolivianos e peruanos. Remunerados com a metade de um salário mínimo, eles já chegavam ao Brasil devedores de seus patrões, terceirizados da empresa.

Segundo se noticiou, as peças eram feitas em apertadas e escuras residências quase sem janelas. Um habitat bem distinto dos elegantes endereços onde normalmente são vendidas. Para os operários do subúrbio da alta costura, algo em torno de dois reais por trabalho.

A empresa disse que não sabia da situação; muitos consumidores, que não queriam saber.

Parte dos clientes ouvidos afirmou que não se importa com o problema. Eles acreditam que todas as empresas fazem o mesmo e, enfim, avaliam não ter qualquer responsabilidade sobre isso.

Não faltou quem se sentisse até indignado com a crítica, acuado com as sugestões de boicote à marca. "Vamos ter de comprar na C&A, agora?", praguejaram nas redes sociais.

A publicidade faz maravilhas. A principal delas é isolar o produto das consequências de sua fabricação.

Quando compramos nossos Ipods, Ipads e outros tantos apetrechos, não estamos pensando na situação de mineiros africanos que tenham morrido extraindo metais, nem na contaminação tóxica que a industrialização pode espalhar aos operários e ao meio ambiente.

A idealização do consumo se reveste na capacidade de poupar o consumidor dos detalhes sórdidos que estão por trás da produção, da mesma forma como não somos estimulados a pensar nos malefícios da degradação dos produtos, depois que eles não nos interessam mais.

Em "A História das Coisas" (The Story of Stuff), que circula pelas redes sociais, a ativista Annie Leonard procura chamar a atenção para o que está por trás dessa cadeia de produção, invisíveis violências contra seres humanos e a natureza.

E alerta para o motor que mantém o consumismo sempre frenético: a obsolescência planejada. Os bens são produzidos propositadamente para durar pouco e para aqueles que podem durar mais, a moda, a publicidade, a imprensa, enfim, se encarregam de fazer com que queiramos trocar por modelos mais práticos, mais bonitos, mais modernos.

Enfim, consumir sempre mais e mais.

O ataque desenfreado aos recursos naturais e a exploração desmedida da mão-de-obra barata não fazem parte de nossas preocupações enquanto consumimos. São verdades inconvenientes.

Afinal, conhecer a podridão da produção significa sentir-se responsável por parte dos seus males. E, como se sabe, a culpa é inimiga do consumo.

A emergência do perigo ao planeta tem direcionado muitos jovens às causas ecológicas, esperançosos em participar de um desenvolvimento sustentável, que nos permita viver sem exterminar o mundo ao mesmo tempo.

Mas tanto quanto o planeta, milhões e milhões de pessoas na base da pirâmide social, também correm sério risco de extinção a cada dia. Refugiados somalis, trabalhadores sem- terra ou imigrantes escravizados são prova viva disso. Ou quase viva.

A exploração predatória dos recursos naturais tem tudo a ver com o modo de produção que reduz o trabalhador a muito menos do que a sua dignidade.

A ganância não encontra limites que não lhe sejam impostos. E a ânsia do lucro estratosférico atropela qualquer resquício de responsabilidade social que o marketing possa nos apresentar em meio a sorrisos e belas imagens na TV.

Salvar o planeta é mais do que usar papel reciclado ou participar da coleta seletiva.

É compreender que quem compra uma camisa no shopping também é responsável pela exploração do trabalhador que a produziu.

Fonte: Terra / Marcelo Semer

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