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Uma greve com impacto em muitas vidas

01/01/2011

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"São 483 mil bancários no país. Se cada um representar uma família de quatro pessoas, olha quanta gente é beneficiada, em seu dia a dia, pelo resultado disso. Então, tudo isso vale a pena"

São Paulo – Ao completar 39 anos no último domingo (16), Juvandia Moreira, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, completou também 20 dias à frente da maior greve da categoria nas duas últimas décadas – encerrada na noite de segunda-feira pela maioria das assembleias realizadas em todo o país.

Para Juvandia, o movimento conseguiu duas vitórias importantes: uma política, com o apoio da categoria e da população na queda de braço com o sistema bancário; e outra econômica, ao extrair, com a paralisação, uma proposta que contempla aumentos reais de salários acima da média e ainda mais substanciais nos valores do piso e das participações nos lucros e resultados – mesmo numa conjuntura rodeada de crises em que parte da imprensa e dos “especialistas” costumam achar que pôr dinheiro na mão do povo é uma heresia inflacionária.

Nesta entrevista, a dirigente faz uma avaliação do movimento, fala das preocupações que já ocupa a agenda do setor bancário dos próximos anos e se mostra espantada com a “impunidade” do sistema financeiro mundial em meio às crises que tem protagonizado desde 2008. O momento, acredita, é crucial para se discutir o papel dos bancos e seu sentido para a sociedade.

Por que iniciar uma greve antes de insistir mais nas negociações?

Na verdade, não é que a gente não tenha negociado. A primeira proposta que surge veio depois de um mês e meio de negociação. Tentamos negociar muito, e os bancos já conheciam os parâmetros, por onde tinha de passar a proposta – por aumento real, pela valorização do piso, por aumento da PLR (participação nos lucros ou resultados), por questões relacionadas à condição de trabalho. E aí a gente sabia que a negociação estava esgotada. Não adiantava ficar no processo de negociação se já tínhamos as respostas. E elas eram completamente insuficientes, e mostravam o limite que os bancos estavam estabelecendo.

Está mais complicado negociar com o setor financeiro do que com o setor produtivo? Os bancos resistem mais a chegar até onde podem na base do diálogo?

O que acontece é uma disputa pelo aumento real, pelo tamanho do acordo e o custo desse acordo. Antes, na década passada, nós tínhamos uma conjuntura muito difícil para os trabalhadores. No setor privado, um ambiente de muito desemprego e nos bancos públicos um ambiente pesado de ataques aos direitos. O recurso que a gente tinha eram aquelas pequenas paralisações, que a gente chamava de Kinderovo. Íamos tentando negociar e avançar entre uma paralisação e outra. Hoje a conjuntura é de crescimento da economia, o país com a perspectiva de se tornar a quinta maior economia do mundo, e aí os trabalhadores também se veem mais fortalecidos.

Mesmo nos bancos privados, onde antes havia mais dificuldades de movimentação, está havendo uma adesão maior.

Isso também é resultado dessa nova realidade econômica. Os trabalhadores se veem mais fortes para ir atrás de novas conquistas. Aqui em São Paulo, a greve foi maior no Itaú e no Santander do que no BB. No HSBC houve uma boa participação. No dia em que os bancos apresentaram a proposta final houve paralisações fortes em várias áreas.

Desde 2005 temos vivenciado esse processo em que a polícia aparece para abrir caminho e funcionários de vários setores resistem e não entram. Na década de 1990, se botasse uma faixa os bancários passavam por cima, tão grande era o medo. Hoje, não. Este ano, em várias agências bastava pôr uma faixa lá informando que estava em greve e ninguém ia trabalhar, isso no Brasil inteiro.

Por que este ano os bancos demoraram tanto para apresentar uma nova proposta, depois de iniciada a greve?

Eu acho que queriam tentar nos derrotar em questões como o aumento real, primeiro, depois os dias parados.

A postura então era mais política do que financeira, já que dinheiro não é problema para eles?

Talvez as duas coisas. Dinheiro não é problema, mas eles sempre querem mais. Seja para comprar outro banco, seja para mandar para o exterior, enfim, a prioridade deles não são os funcionários. E acho que tinha essa questão colocada por parte deles, é o oitavo ano seguido que a categoria faz greve, então gostariam de derrotar o movimento este ano.

Pelo que se via na imprensa nos últimos dias, parecia haver má vontade do governo, por isso os bancos públicos estariam embaçando e o setor privado estava na moita.

De forma alguma. Os dois setores, público e privado, estavam na mesma postura. Parecia haver entre eles concordância em fechar a campanha com aumento menor. A mídia pautava muito isso, que a conjuntura não seria boa para grandes aumentos por causa da inflação; e depois passou a causar muito eco para que se descontassem os dias parados.

E de nossa parte, tentamos o tempo todo desmontar essas teses. Para nós, se o país está crescendo, os trabalhadores têm de se apropriar dos ganhos de produtividade e reduzir as desigualdades. E esse setor tem uma rentabilidade muito alta, em torno dos 25%, o que significa que a cada quatro anos um banco pode dobrar seu patrimônio.

Enfim, a disputa em questão é por distribuição de renda ou não. E fazer valer a tese de que o aumento real é necessário talvez tenha sido nossa maior vitória, porque esse aumento real vai beneficiar a sociedade inteira. É mais renda movimentando a roda da economia, estimulando a produção de bens de consumo e, portanto, criando mais empregos. E isso que é importante para o Brasil. Capital concentrado nas mãos do banqueiro, do grande executivo, vira carro importado, lancha, remessa para o exterior, não reverte em ganho para a sociedade; e os executivos dos bancos tiveram grandes aumentos em seus bônus, em suas verbas.

Os ganhos dos executivos estão na rubrica “despesas com pessoal” dos bancos?

Há quem diga que os 10% mais bem pagos dos bancos ficam com 30% de toda a remuneração.

E como é organizar uma greve num segmento pulverizado em tantos locais de trabalho?

É um setor realmente atípico. Primeiro porque junta trabalhador de setor público e privado numa única campanha, o que faz uma diferença muito grande.  Segundo, o setor não é concentrado – até tem as chamadas concentrações, os centros administrativos –, é muito pulverizado, são 20 mil agências no Brasil. Aqui em São Paulo, metade dos trabalhadores está em concentrações e a outra metade espalhada nas agências.

E agências paradas já nem dão muito prejuízo para banco, não?

A paralisação é uma questão de estratégia, de como fazer uma greve que realmente perturbe o setor. Parar agências tem muito a ver a com imagem; é quando a população vê que o setor está sendo questionado e é a hora que você dialoga com a população sobre o papel do sistema financeiro.

E como a população reage ao ter o atendimento comprometido? O sindicato tem como medir essa reação?

Tem, no dia a dia. No contato. A gente está em todas as regiões da cidade, a gente começa a se comunicar e a dialogar antes mesmo da paralisação, o autoatendimento funcionou, então, no geral, notamos um apoio. Nesse ponto a gente ganhou o debate. As pessoas se perguntavam: “Como é que pode, os bancos ganhando tanto dinheiro deixarem vocês irem para a greve? Por que eles não fazem um acordo antes, sem greve?”

As pessoas perguntavam muito isso, e se espantavam, porque nossa reivindicação não tinha nada de absurdo. Além disso o cliente tem muito contato com o bancário, acaba sabendo como é a realidade; e até mesmo o bancário que entra para trabalhar, que não faz greve mas defende o movimento, ele acaba dialogando com o cliente também. Então no geral houve um apoio muito grande da população.

E quando o banco adota na negociação uma postura de querer economizar, de não valorizar, aqueles bancários que vestem a camisa e ralam o ano todo não se sentem meio que traídos, decepcionados, ou pelo menos entristecidos com a empresa?

Com certeza. E eles demonstram a indignação deles. E isso fica mais claro para alguns bancos do que para outros. A gente mesmo questionava os bancos: “Olha, por que vocês acham que tem tanta agência parada no Brasil inteiro; por que é tão fácil parar o seu banco? Vocês têm de repensar, porque alguma coisa está errada...”.

Os bancos que passaram por processos de fusão, como Itaú e Santander, era onde havia maior tensão. As pessoas estão muito indignadas. Você precisa ver a quantidade de mensagens que chegam pra gente, pedindo pra ir ajudar a parar determinados lugares. São bancos que demitiram muito no primeiro semestre, onde se instalaram relações muito conflituosas, de insegurança, com metas aumentando, as pessoas não tendo tempo para respirar e ainda, no caso do Santander, vendo recursos alcançados aqui num ambiente altamente lucrativo serem remetidos para o exterior.

Então a campanha salarial é o momento em que se traduz toda essa insatisfação. Mesmo entre quem não aderiu todos os dias ou dia nenhum à greve, houve quem de alguma maneira procurou ajudar, colaborar para que desse certo, inclusive dialogando com os clientes e ajudando a formar opinião a favor da gente. Tanto que desde o começo, quando a gente dizia que era preciso ampliar a paralisação, a greve nunca diminuía, fica estável num dia, crescia no outro, e foram 21 dias assim, com o movimento só crescendo.

Essa foi a sua segunda greve na condição de presidenta do sindicato. Você sentiu, do ano passado para cá, alguma mudança em você, na relação com sua base e nos bastidores, nas negociações? O fato de ser mulher ajudou? Atrapalhou?

A gente está sempre aprendendo. E esse negócio, ser homem ou ser mulher, é uma grande bobagem. O que importa é o seguinte: somos pessoas à frente de um sindicato grande, importante, e que tem um apoio grande na base – tanto que o resultado da nossa eleição foi um dos mais contundentes, demonstrando a aprovação ao nosso trabalho.

E desde o ano passado deu para sentir isso, esse apoio. E é natural que a gente vá amadurecendo, adquirindo experiência. Se no ano passado fizemos uma ótima campanha, este ano também foi muito boa, e num ambiente mais difícil, rodeados por uma crise internacional e por um discurso generalizado associando aumento real com ameaça de inflação.

Vocês chegaram a ouvir oficialmente de gente do governo de que havia alguma preocupação com a campanha dos bancários, que seria preciso endurecer com vocês para evitar grandes reajustes?

De forma alguma. Em momento algum alguém do governo manifestou isso para nós.

E a vida pessoal, como fica? Como é a rotina de uma pessoa que vai para uma batalha dessa proporção?

Durante o combate não há praticamente vida pessoal. Você está envolvido 24 horas na greve. Vai dormir de madrugada e acorda de madrugada todo dia. São três, quatro horas de sono por noite. E isso é com a diretora inteira. E às vezes você está no meio do sono e toca o telefone, aparece um problema, as pessoas querem orientação.

Acontece várias vezes – e antes, quando eu era secretária-geral era mais ainda, por que tem essa responsabilidade com a organização. É uma operação grande, que envolve muita gente, tem os militantes que estão lá na ponta, às vezes pela primeira vez. Eu lembro uma ocasião – eu era secretária-geral do Sindicato – me ligaram do CAU (o Centro Administrativo do Unibanco, na zona oeste). É um lugar muito grande, não tinha chegado caminhão de som, faltavam faixas, eram umas 4h da manhã e o banco ainda tinha derrubado um cerca. Então o pessoal catourolos de papel higiênico e fizeram uma “cerca” com papel desenrolado. Então tem de ir atrás de uma baita estrutura. Tem de ter gente, tem de ter lanche, tem de ter água, adesivos, faixas, carro, nada pode faltar. Tem de ter fotógrafo, cinegrafista, um advogado em cada regional...

E o que move as pessoas a se envolverem dessa maneira, abrindo mão do conforto, da vida pessoal?

Ideologia. É você acreditar num ideal, que é possível melhorar a vida das pessoas, saber que essa ação é pra isso. Você só faz se gostar muito. Tem de ter uma certa paixão. Se você acredita que dá para mudar o estado das coisas você vai lá e faz, e não dá para fazer isso sem paixão, sem amor pelo que faz. E tem depoimentos, reações das pessoas que compensam, que tornam tudo isso gratificante.

Outro dia, na paralisação em frente ao Telebanco do Bradesco, nossa jornalista foi entrevistar um senhor que estava lá para dar apoio ao filho bancário na primeira greve dele. Dizia: “Ele só tem o que tem hoje porque a minha geração fez greve. Mesmo que ele sofra pressão dos chefes, não tem de ceder. Nós lutamos por isso, e ele também tem de continuar lutando pelos que vêm depois”. Eu nunca tinha visto isso, um pai ir lá na greve dar força para o filho. Achei muito bonito. Recebemos um outro depoimento de uma mulher, cujo pai foi bancário por 30 anos, e que acompanhou muito a história dele, e que estava orgulhosa de toda a nossa luta.

Isso dá força para vocês enfrentarem aqueles oficiais de Justiça que vivem querendo tirar o sindicato da porta do banco?

Dá força pra enfrentar banqueiro. Se você calcula que tem 483 mil bancários no país e supõe que cada um deles pode representar uma família de quatro pessoas, olha quanta gente está envolvida, e quanta gente pode ser beneficiada, em seu dia a dia, pelo resultado disso. Então, tudo isso vale a pena.

Agora vai poder relaxar um pouco?

Bom, agora é marcar a data da assinatura do acordo. E dar sequência no planejamento da gestão... Pensar um congresso (sobre o sistema financeiro), nos três anos seguintes, olhando os próximos 20. A gente, por exemplo, tem uma linha de pesquisa que estuda o banco do futuro, nos próximos cinco, nos próximos dez anos.

O sistema financeiro mudou muito, e ainda vai mudar muito. Para você conseguir dar respostas e manter a sua categoria representada, organizada, forte para esses desafios que vêm pela frente, você tem de acompanhar para onde o setor está indo. Daqui a pouco o seu banco vai estar no seu celular, e aí, como você faz? E, claro, a gente tem de discutir também qual é o papel do sistema financeiro, qual é o sentido dele para a sociedade.

Esses vários movimentos de protestos que pipocam pelo mundo, na Europa, em Wall Street, ou no Anhangabaú, têm pelo menos uma coisa em comum: todos questionam o excessivo poder do sistema financeiro sobre os rumos do planeta. Não é um bom momento para fazer esse debate com a sociedade?

A gente já faz esse debate. Só que agora as pessoas estão vendo mais claramente o quanto o sistema financeiro pode atrapalhar a economia do mundo inteiro e do quê é capaz uma crise sistêmica. Acho que o único aspecto positivo dessa crise é fazer com que mais pessoas se dêem conta isso. E desde 2008, com crise e tudo, nada mudou em termos de regulamentação, nem aqui, nem em lugar nenhum, e isso evidencia o poder do sistema financeiro. Por exemplo, o mundo todo precisa defender o fim dos paraísos fiscais. O momento é apropriado para discutir isso.

Bom, como se vê, a gente já tem muito trabalho pela frente. A gente nunca para.

Fonte: Revista do Brasil / Paulo Donizetti de Souza

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