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Movimento sindical precisa ter estratégia para disputar os rumos do Brasil

01/01/2011

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Ao contrário da maioria dos países desenvolvidos, que estão sendo trucidados pela segunda maior crise na história do capitalismo, o Brasil vive um momento privilegiado inédito e passa por um grande processo de transformação, cujo desfecho está em aberto. Esse processo, no entanto, não vai durar muito tempo, o que torna imperativo que os movimentos sociais, principalmente os sindicatos, compreendam o que está acontecendo e desenvolvam uma estratégia para atuar incisivamente nessa conjuntura favorável e disputar os rumos do país. Caso contrário, as transformações serão conduzidas e beneficiarão apenas o capital.

Essa é a análise de conjuntura do economista Clemente Ganz Lúcio, diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), feita em palestra que proferiu na última quinta-feira (2), durante reunião da Direção Nacional da Contraf-CUT, realizada no auditório da entidade, em São Paulo.

"Vivemos momento absolutamente favorável"

"Estamos vivendo um momento inesperado, absolutamente favorável, que não era para estar acontecendo", brincou o economista ao fazer uma comparação entre o Brasil da década de 1990 e o do início do século 21. "Naquela época, quando o capital comemorava a vitória derradeira do neoliberalismo, nosso time jogava inteiro na retranca. Os trabalhadores vinham num processo de perdas e resistiam para não serem aniquilados. O desemprego chegou a 22% em São Paulo, 30% em Salvador, o salário mínimo equivalia a 50 dólares. Chegamos a fazer campanha para elevar o mínimo a 100 dólares", lembrou Clemente.

A ideia dominante era de que aumentar o salário mínimo levaria à explosão da inflação, do desemprego e da informalidade. "Essa crença dos neoliberais dominou o ambiente econômico e político do país por 15 anos."

Na década de 90, ironizou o economista do Dieese, "uma unha encravada na Rússia infeccionava a perna toda do Brasil e lá vinha o FMI emprestar dinheiro e dizer o que tínhamos de fazer. Exatamente o que está fazendo agora com a Europa".

"Estamos reduzindo a desigualdade"

Hoje, enquanto os EUA, a Europa e o Japão são duramente atingidos pela crise econômica, que já completa quatro anos e meio, em que os trabalhadores perdem direitos e a desigualdade aumenta, o Brasil vive um momento oposto.

"Mudamos o jogo. Estamos reduzindo a desigualdade a uma grande velocidade. Fizemos em cinco anos agora o que no passado demorava duas décadas. O país criou quase dois milhões de emprego em 2011. O salário mínimo hoje é de 300 dólares. E essa inclusão está se dando pelo trabalho, o que era impensável há pouco tempo atrás", declarou Clemente.

Para o diretor-técnico do Dieese, esse "processo de transformação intensa, que dá ao Brasil uma situação privilegiada", se deve à conjunção de três fatores:

1. Uma situação demográfica favorável, formada por uma população com grande maioria de jovens com capacidade produtiva.

2. As mudanças na estratégia do governo federal, que recolocou o desenvolvimentismo na agenda econômica e política do país.

3. Um desenvolvimento orientado pela ação do Estado. "Recuperamos a ideia de que o Estado tem papel relevante a desempenhar. Esse debate já estava perdido para os neoliberais e hoje até o Fukuyama reconhece esse fato", lembrou Clemente.

"Se caminharmos mais 20 anos assim, teremos uma extraordinária possibilidade de fazer uma grande transformação econômica, social e política no Brasil, dentro da democracia, equivalente ao que a Europa fez com o Estado de bem-estar social", acredita o economista do Dieese.

"Estamos preparados para conduzir essas transformações?"

Ele considera que é única a oportunidade que o país reúne atualmente para se desenvolver com inclusão social e distribuição de renda. Dentro de duas décadas, na avaliação do economista, o Brasil perderá a força demográfica favorável, com o progressivo envelhecimento da população. E as outras transformações dependerão da capacidade de intervenção dos movimentos sociais, particularmente do movimento sindical.

"Mas os movimentos sociais estão preparados e têm estratégia para intervir nessas transformações?", questionou Clemente. Ele demonstrou ceticismo sobre a capacidade de o movimento sindical cumprir esse papel imprescindível, sobretudo se não mudar sua visão e atuação estreitamente corporativa.

"A classe trabalhadora é mais que a soma das categorias"

"A mudança em curso exige que pensemos como classe trabalhadora. Mas classe trabalhadora não é a soma das categorias profissionais. É muito mais que isso. É o momento de a classe trabalhadora conduzir esse processo de transformação. Mas para isso ela precisa sair da defesa e desenvolver uma estratégia de transformação, com propostas concretas para as mudanças em andamento", provocou o diretor-técnico do Dieese.

Na sua opinião, isso significa disputar com propostas que contemplem a visão e os interesses dos trabalhadores todos os debates relevantes que definirão o Brasil do futuro, das questões trabalhistas ao modelo de desenvolvimento, passando pela educação, saúde, meio ambiente, reforma tributária, reforma política, regulamentação do sistema financeiro etc..

"Essa disputa que temos hoje, com tantas variáveis a nosso favor, não tínhamos há dez anos. Mas precisamos de dirigentes capazes de conduzir esse processo de transformações. Esse é o nosso desafio", alertou Clemente.

"Mudança na democracia exige acordos sociais"

Para ele, "o movimento sindical precisa sair da retranca, onde muitos ainda se encontram, e mudar a estratégia para avançar. A mudança na democracia exige pactuação de acordos sociais. O conflito entre capital e trabalho não vai acabar, mas podemos colocá-lo num outro patamar", apontou.

"O ambiente é favorável, não podemos perder essa oportunidade inédita e precisamos colocar valores como cooperação, igualdade e solidariedade para estruturar as transformações sociais", concluiu o diretor-técnico do Dieese.

Por: Contraf/CUT / Instituto Observatório Social

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