quinta-feira, abril 2, 2026

Março, mês do consumidor, também deve ser tempo de valorizar quem sustenta o comércio

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Por Lucilene Binsfeld*

Março é tradicionalmente lembrado como o mês do consumidor. É um período em que o comércio intensifica campanhas, ofertas e ações promocionais, reforçando a importância de quem compra, movimenta a economia e mantém vivo o mercado. Mas essa data também convida a uma reflexão indispensável: por trás de cada vitrine organizada, de cada atendimento prestado e de cada venda realizada, existem trabalhadores e trabalhadoras que sustentam o funcionamento do comércio diariamente. Valorizar o consumidor também passa por valorizar quem trabalha para atendê-lo.

Nesse contexto, o debate sobre o fim da escala 6×1 ganha enorme relevância. Mais do que uma discussão sobre jornada, trata-se de um tema ligado à saúde, à dignidade, à qualidade de vida e à construção de relações de trabalho mais equilibradas. A Fundacentro vem tratando explicitamente o tema como uma questão de promoção da saúde dos trabalhadores, e o próprio debate público no Brasil ganhou força recente com manifestações do Ministério do Trabalho em favor da redução da jornada e do avanço sobre o fim da escala 6×1.

As evidências sobre os impactos de jornadas longas são consistentes. Em estudo conjunto, a Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho apontaram que trabalhar 55 horas ou mais por semana está associado ao aumento do risco de acidente vascular cerebral e de doença isquêmica do coração. Segundo essa estimativa, longas jornadas contribuíram para centenas de milhares de mortes no mundo, reforçando que o excesso de trabalho não é apenas um problema organizacional, mas também um problema de saúde pública.

No comércio, esse debate é ainda mais sensível. Trata-se de um setor marcado por atendimento contínuo ao público, pressão por metas, trabalho em fins de semana, longos períodos em pé e forte desgaste físico e emocional, especialmente em períodos promocionais e datas sazonais. Uma jornada mais equilibrada tende a significar menos fadiga acumulada, menor adoecimento, melhor condição de permanência no emprego e maior qualidade no atendimento prestado à população. O problema central não é o descanso do trabalhador, mas um modelo que frequentemente transfere para o corpo e para a saúde de quem trabalha o custo da operação do negócio.

Esse tema se torna ainda mais importante quando olhamos para a presença feminina no setor. Dados do Ministério do Trabalho mostram que as mulheres representavam 44,8% da força de trabalho no comércio em 2025. Isso significa que qualquer debate sobre jornada nesse segmento impacta diretamente a vida de milhões de trabalhadoras, muitas delas expostas a rotinas intensas de atendimento, remuneração limitada e baixa previsibilidade de descanso.

Para as mulheres, o peso da escala 6×1 costuma ser ainda maior porque a jornada remunerada geralmente não encerra o trabalho do dia. O DIEESE vem demonstrando que as mulheres seguem enfrentando desvantagens no mercado de trabalho e continuam assumindo uma parcela muito maior do trabalho não remunerado dentro de casa. Esse desequilíbrio aparece no cuidado com filhos, idosos, alimentação, limpeza e organização doméstica, compondo a conhecida dupla jornada. Quando a trabalhadora do comércio cumpre seis dias seguidos de trabalho e dispõe de pouco tempo real para descanso, o resultado costuma ser sobrecarga, esgotamento e menos tempo para autocuidado, estudo e convívio familiar.

A discussão sobre o fim da 6×1, portanto, não interessa apenas ao campo trabalhista em sentido estrito. Ela dialoga também com igualdade de gênero, permanência no emprego e oportunidades futuras. O DIEESE destaca que a sobrecarga feminina fora do mercado formal interfere inclusive nas possibilidades de qualificação e progressão profissional. Ao mesmo tempo, o governo federal registrou em 2025 que as mulheres ainda recebem, em média, 21% menos que os homens nas empresas com 100 ou mais empregados. Ou seja, muitas mulheres trabalham mais quando se soma o trabalho pago ao não pago, e ainda assim seguem recebendo menos.

Relacionar o mês do consumidor a esse debate é essencial porque não existe consumo responsável sem trabalho digno. O bom atendimento, a disponibilidade dos serviços, a organização das lojas e a experiência de compra não surgem de forma abstrata: são resultado direto do esforço de equipes que precisam de condições humanas para exercer suas funções. Um comércio mais justo para quem trabalha também é um comércio melhor para quem consome. A defesa de jornadas mais equilibradas não enfraquece o setor; ao contrário, contribui para relações mais sustentáveis, com menos rotatividade, menor absenteísmo e mais qualidade no serviço. Essa visão, inclusive, aparece nas falas recentes do Ministério do Trabalho ao associar satisfação no trabalho, produtividade e redução de adoecimentos mentais.

Experiências internacionais ajudam a mostrar que a redução do tempo de trabalho não é uma fantasia, mas uma possibilidade concreta quando há organização adequada. A experiência mais conhecida é a da Islândia, onde testes e acordos posteriores reduziram jornadas sem corte salarial para muitos trabalhadores, com melhora de bem-estar e manutenção ou melhora da produtividade em vários contextos. A França, por sua vez, convive há décadas com uma referência legal de 35 horas semanais, demonstrando que economias desenvolvidas podem operar com padrões mais protetivos de tempo de trabalho. Esses exemplos não são cópias automáticas para o Brasil, mas mostram que reorganizar o trabalho é possível quando há compromisso social e planejamento institucional.

No caso brasileiro, é importante destacar que a mudança precisa ser feita com responsabilidade: sem redução salarial e sem intensificação abusiva do trabalho. A própria Fundacentro alertou que o fim da escala 6×1 não pode significar a compressão da mesma exaustão em menos dias. A meta deve ser ampliar tempo de descanso, proteger a saúde e criar um ambiente de trabalho mais equilibrado, e não apenas reorganizar formalmente a escala para manter o mesmo nível de sobrecarga.

Março, mês do consumidor, pode e deve ser também um mês de reflexão sobre quem torna o consumo possível. Defender os direitos de trabalhadores e trabalhadoras do comércio é defender um modelo de desenvolvimento que respeita a saúde, o tempo de vida e a dignidade humana. E, no caso das mulheres, é também reconhecer que enfrentar jornadas exaustivas é parte do caminho para reduzir desigualdades históricas. Valorizar o consumo sem valorizar quem trabalha é manter invisível a base que sustenta o próprio comércio. Valorizar o consumidor de verdade é valorizar também o trabalhador e a trabalhadora do comércio.

 

  • Lucilene Binsfeld (Tudi) é diretora nacional da Contracs-CUT e diretora executiva do Instituto Observatório Social
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