quarta-feira, abril 1, 2026

Lembrar para resistir

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Por Julimar Roberto*

Relembrar os 21 anos da ditadura militar no Brasil é mais do que revisitar o passado, é entender o preço que se paga quando a democracia é rompida. Entre 1964 e 1985, o país viveu sob censura, perseguições, torturas e supressão de direitos básicos. Não havia liberdade plena de expressão, organização política ou participação popular. O medo era política de Estado.

Foi justamente como reação a esse período que o Brasil deu um de seus passos mais importantes, promulgar a Constituição de 1988. Conhecida como “Constituição Cidadã”, a iniciativa marcou a reconstrução democrática e estabeleceu uma base sólida de direitos e garantias fundamentais. De lá para cá, o país avançou — com contradições, sim —, mas avançou. Ampliou políticas públicas, fortaleceu instituições, consolidou direitos trabalhistas e sociais, e garantiu maior participação da sociedade na vida política.

Esses avanços, no entanto, nunca estiveram completamente assegurados. A democracia não é uma conquista definitiva, ela exige vigilância permanente. Prova disso foi a vergonha vivenciada em 8 de janeiro de 2023. Naquele dia, não se tratou apenas de vandalismo contra prédios públicos, foi um ataque sistêmico às instituições, à soberania do voto e ao próprio pacto democrático construído ao longo de décadas. Foi um lembrete duro de que o autoritarismo não desaparece — e, de tempos em tempos, ele se reorganiza.

Agora, às vésperas de mais um processo eleitoral, o cenário exige atenção redobrada. O país convive com um Congresso cada vez mais conservador, o que por si só não é um problema em uma democracia plural, mas que, somado a outros fatores, pode representar riscos concretos a direitos historicamente conquistados. Há uma crescente disputa de narrativas, muitas vezes baseada não em fatos, mas em versões distorcidas da realidade.

Nesse contexto, o uso desenfreado das tecnologias digitais, especialmente da inteligência artificial, adiciona uma nova camada de complexidade. Deepfakes, conteúdos manipulados e redes de desinformação têm o potencial de confundir, enganar e influenciar decisões políticas de forma silenciosa e massiva. A mentira, agora, pode ser produzida em escala industrial — e com aparência de verdade.

É nesse ambiente que a sociedade brasileira é chamada a agir. Não há espaço para neutralidade quando a própria democracia se apresenta sempre tão frágil. É preciso valorizar a informação de qualidade, questionar conteúdos duvidosos, fortalecer o debate público e, sobretudo, lembrar da história. Porque esquecer o que foi a ditadura é abrir caminho para que seus erros se repitam.

Os 21 anos de regime autoritário deixaram marcas profundas. As décadas seguintes mostraram que é possível reconstruir, avançar e ampliar direitos. Mas também deixaram claro que nada disso é garantido para sempre. A democracia brasileira é jovem — e, como toda construção recente, ainda vulnerável.

Mais do que nunca, é preciso olhar o passado para poder encarar o presente com responsabilidade. Defender a democracia não é um ato abstrato, é uma escolha concreta, cotidiana, que se expressa no voto, na participação e na recusa em aceitar o inaceitável.

O Brasil já sabe o que acontece quando a democracia é interrompida. E justamente por isso, não pode permitir que a história se repita.

 

*Julimar é comerciário e presidente da Contracs-CUT

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