sábado, julho 11, 2026

O fascismo troca de roupa, mas não de projeto

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Por Julimar Roberto*

As eleições se aproximam e, mais uma vez, a extrema direita começa a se apresentar com voz mansa, roupa nova e discurso aparentemente simples. Diz que quer ordem. Diz que quer liberdade. Diz que quer proteger a família, combater o crime, acabar com a corrupção e devolver ao povo tudo aquilo que eles mesmos teriam roubado de nós. O truque é antigo. A fantasia muda, mas o personagem continua sendo o mesmo lobo travestido de cordeiro.

Mas essa situação não é um privilégio do Brasil. Na América Latina, esse roteiro tem se repetido com uma regularidade preocupante. Em países marcados pela desigualdade, pela violência, pela precarização da vida e pelo descrédito nas instituições, a extrema direita não chega oferecendo um projeto de futuro. Chega oferecendo um atalho. E todo atalho autoritário começa prometendo eficiência, coragem e limpeza moral. Foi assim que o fascismo se apresentou em outros momentos da história — não como barbárie assumida desde o primeiro dia, mas como promessa de salvação nacional. Primeiro inventa inimigos, depois transforma o medo em política e, por fim, tenta convencer a sociedade de que a democracia é lenta demais para resolver seus problemas.

O problema é que, por trás das palavras fáceis, quase sempre está escondido o mesmo pacote de menos direitos, mais repressão, menos Estado para proteger os pobres, mais Estado para vigiar e punir os pobres. Falam em liberdade, mas atacam professores, artistas, jornalistas, sindicatos, movimentos sociais, mulheres, povos indígenas, população negra, migrantes e qualquer pessoa que ouse discordar. Falam em pátria, mas se ajoelham diante dos interesses do mercado financeiro e de potências estrangeiras. Falam em povo, mas governam para poucos privilegiados.

A extrema direita latino-americana entendeu algo perigoso, que a política do medo dá voto. O medo da violência. O medo do desemprego. O medo da mudança. O medo do outro. O medo do futuro. Por isso, ela não precisa necessariamente apresentar soluções reais. Basta transformar angústias legítimas da população em raiva direcionada contra inimigos fabricados.

Para eles, quando falta segurança pública, a resposta é sempre mais prisão, mais arma, mais confronto e menos educação. Quando falta emprego decente, a resposta é sempre cortar direitos trabalhistas em nome de uma prosperidade que nunca chega para quem vive de salário. Quando falta confiança nas instituições, a resposta é atacar o Judiciário, a imprensa, o Congresso, as universidades e qualquer espaço de mediação democrática. Quando a vida fica mais difícil, a culpa nunca é da concentração de renda, das disparidades sociais, da exploração do trabalho ou das elites que lucram com a crise. A culpa é sempre de algum inimigo conveniente.

É assim que o autoritarismo tenta se reciclar. Ele já não aparece, necessariamente, com farda, tanque na rua e discurso assumido contra a democracia. Agora, muitas vezes, aparece com live, meme, slogan, dancinha, estética jovem, fala indignada e promessa de “passar o país a limpo”. Mas a essência continua a mesma, reduzir a complexidade do mundo a uma guerra permanente entre “cidadãos de bem” e “inimigos internos”.

Essa divisão interessa a quem não tem compromisso real com a população e o país. Porque um povo com medo aceita perder direitos em troca de uma falsa sensação de proteção, de segurança. Um povo exausto pode ser convencido de que o problema é o vizinho, o imigrante, a mulher feminista, o jovem da periferia, o sindicato, o professor, o artista ou o ministro do Supremo. Enquanto isso, os verdadeiros algozes seguem intocados.

A democracia, com todos os seus limites, incomoda justamente porque abre espaço para conflito social organizado. Nela, trabalhador e trabalhadora podem reivindicar. Movimento popular pode ocupar as ruas. Sindicato pode denunciar. Jornalista pode investigar. Universidade pode produzir pensamento crítico. O voto pode mudar governos. A praça pode virar assembleia. A palavra pode circular.

Por isso, a extrema direita não precisa acabar com a democracia de uma vez. Basta esvaziá-la por dentro. Basta transformar eleição em guerra santa, adversário em criminoso, imprensa em inimiga, Justiça em conspiração, direitos humanos em privilégio e política social em gasto inútil. Quando se percebe, a democracia continua tendo calendário eleitoral, mas já perdeu parte de sua alma.

A esquerda brasileira precisa olhar para esse fenômeno sem ingenuidade. Não basta repetir que a extrema direita é perigosa. É preciso disputar o sentido da vida concreta. A segurança pública não pode ficar nas mãos de quem só oferece violência. A família não pode ser usada como discurso por quem nega comida, moradia, escola, saúde e tempo de convivência. A liberdade não pode ser sequestrada por quem defende patrão livre para explorar e trabalhador preso à necessidade. A pátria não pode ser bandeira de quem entrega a soberania do país e chama submissão de patriotismo.

A resposta democrática precisa ser firme, popular e enraizada. Firme para não normalizar golpismo, mentira e violência política. Popular para falar com quem pega ônibus lotado, paga aluguel caro, teme a violência no bairro, cuida dos filhos, vive de bico, trabalha seis dias por semana e já não aguenta promessas vazias. Enraizada porque não se enfrenta o fascismo apenas com nota pública, postagem bonita ou indignação de ocasião. Enfrenta-se com organização, presença nos territórios, escuta real e coragem de apresentar um projeto de país.

A extrema direita cresce quando a esperança desaparece. Cresce quando a política parece distante. Cresce quando a democracia vira apenas palavra de cerimônia e deixa de ser percebida como comida na mesa, salário digno, escola funcionando, posto de saúde aberto, transporte decente, cultura viva, proteção contra a violência e tempo para viver.

Por isso, defender a democracia hoje não é defender uma abstração. É defender a possibilidade do povo decidir seu destino sem medo, sem cabresto, sem manipulação e sem chantagem. É defender que a segurança pública seja construída com inteligência, prevenção, justiça social e enfrentamento ao crime organizado, não com espetáculo de sangue. É defender que desenvolvimento não seja sinônimo de retirada de direitos, mas de distribuição de oportunidades. É defender que a liberdade seja para todos, todas e todes, não apenas para os mais fortes.

As eleições que se aproximam serão mais do que uma disputa entre nomes. Serão uma disputa entre projetos de sociedade. De um lado, a política do medo, da punição, do ressentimento e da submissão ao dinheiro. De outro, a difícil, mas necessária, tarefa de reconstruir esperança, direitos, soberania e participação popular.

O lobo vem aí outra vez. Vem sorrindo. Vem falando em Deus, pátria, família, ordem ou prosperidade. Vem prometendo soluções rápidas para dores profundas. Mas a história ensina que quando o autoritarismo bate à porta dizendo que veio trazer a salvação, é o povo quem primeiro paga a conta.

A democracia não está garantida. Ela precisa ser defendida antes que seja tarde. E, sobretudo, precisa voltar a fazer sentido na vida de quem mais precisa dela.

*Julimar é comerciário e presidente da Contracs-CUT

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