Por Julimar Roberto*
Já sabemos que a estratégia de pôr fim à escala 6×1 durante a semana de esforço concentrado do Senado foi vítima de sabotagem calculada pelo bolsonarismo. Enquanto a maioria esmagadora da população desejava mudanças, e mesmo o governo articulava soluções de transição, o bloco conservador de parlamentares atuou em duas frentes, no Congresso, retardando o processo, e nas redes sociais, espalhando medo e mentiras.
Na Câmara, foi preciso esforço do governo e pressão das ruas para que a CCJ sequer liberasse a pauta. Deputados ligados ao bolsonarismo pediram vista dos pareceres sobre o 6×1 apenas para ganhar tempo. Essa manobra não se baseava em dúvida genuína sobre o texto, mas sim em truque político. O mesmo grupo se notabilizou por apresentar uma proposta-trambique (“pagamento por hora”) para alimentar o medo de jornadas intermináveis. Queriam trocar as 36–40 horas semanais por um modelo onde o patrão pudesse, na prática, impor 50 horas – e ainda inverter a situação, dizendo que quem se sentisse prejudicado poderia ganhar menos e fazer “bicos” à parte. Essa é uma lógica típica de desinformação, pintam o fim do 6×1 como catástrofe econômica, mesmo com a lei em vigor já permitindo até 44 horas.
No Senado, a estratégia foi ainda mais cristalina. Embora a PEC tenha sido aprovada pela Câmara em maio de 2026, o texto ficou um mês inteiro parado no gabinete do presidente Alcolumbre. Por que esse atraso? Oficiais do setor produtivo haviam apresentado naquele momento um projeto alternativo (PEC 12/2026, de Rogério Marinho) que favorecia ampliação de horário por hora trabalhada, e esse sim foi encaminhado de imediato para comissão. Ou seja, o tempo de tramitação foi manipulado. O resultado concreto é que a votação decisiva foi empurrada para setembro e potencialmente outubro, quando a campanha eleitoral já está quente e senadores querem evitar desgastes populares.
Nas mídias e redes sociais, a ofensiva de narrativas falsas foi intensa. As federações empresariais CNI e Fiesp sustentaram (sem dados confiáveis) que reduzir a jornada jogaria o país no subdesenvolvimento. Em várias reportagens, grandes jornais repercutiram essas previsões alarmistas sem o devido contraponto – uma repetição do velho alarmismo empresarial contra direitos trabalhistas. Políticos próximos a empresários publicaram memes questionando a mudança, enquanto sindicatos e deputados progressistas tentavam corrigir equívocos. O Senado Verifica – serviço oficial de checagem de informações e combate à desinformação do Senado – recentemente alertou que o debate virou alvo de “diversas interpretações falsas” nas redes, evidenciando a gravidade da desinformação.
Mesmo assim, a mobilização popular demonstrou sua força. As centrais sindicais lideraram protestos em todo o país e impulsionaram uma intensa campanha nas redes sociais, com hashtags em defesa da escala 5×2 e do fim da 6×1. Um exemplo desse impacto ocorreu em junho, quando a Folha destacou que a pressão exercida pelos próprios trabalhadores e pela opinião pública ajudava a explicar por que apenas 22 deputados se opuseram à redução da jornada, enquanto a ampla maioria votou favoravelmente à mudança. Esse resultado mostrou a força que o tema havia adquirido socialmente.
No debate público, a resistência ao fim da escala 6×1 perdeu espaço à medida que mais pessoas passaram a discutir seus efeitos concretos sobre a vida dos trabalhadores e trabalhadoras. Milhões de brasileiros e brasileiras submetidos a jornadas semelhantes conhecem de perto o desgaste provocado por esse regime. Ao compreenderem que o texto aprovado previa uma jornada de 40 horas semanais, sem redução salarial, a tendência foi de crescimento do apoio à medida.
No momento atual, com a PEC no plenário do Senado, a responsabilidade recai sobre cada senador. É imperativo que eles escutem não só o lobby das grandes empresas, mas a voz da classe trabalhadora – representante majoritário nesta questão. A análise dos documentos oficiais e das reportagens mostra que o bolsonarismo tentou manipular procedimentos, apelar ao medo econômico e propagar boatos para evitar o fim da escala 6×1. Cabe à sociedade agora intensificar a pressão e exigir total transparência.
Precisamos exigir que o debate seja aberto, transparente e imediato no Senado, sem manobras que retardem ou esvaziem a votação e com prazos claramente definidos. Mais do que nunca, é fundamental acompanhar de perto a circulação de fake news, denunciar informações falsas e desmentir boatos que possam confundir a população sobre o conteúdo da proposta.
Também é necessário manter a pressão sobre os parlamentares e fortalecer a mobilização social, preservando o tema no centro do debate público até a votação definitiva. Essa discussão não pode ser adiada indefinidamente nem simplesmente engavetada.
O fim da jornada 6×1 não é jogada eleitoreira. É uma proposta debatida há anos, embasada em pesquisas de bem-estar e recomendada por especialistas do trabalho. Vale lembrar que não se propõe “limitar direitos”, mas sim garantir que sempre haja dois dias efetivos de descanso, fato que até a Constituição prevê para casos gerais (CLT) mas não assegura na prática. A afirmação de que “se acabar o 6×1 vai aumentar desemprego” é um alarme falso provocado por interesses de cartéis industriais.
O bolsonarismo tentou adiar uma conquista histórica dos trabalhadores e das trabalhadoras, mas cada movimento para bloquear esse avanço também deixa mais claro quem está ao lado de quem nesse debate. Acabar com a escala 6×1 é avançar em dignidade, saúde, qualidade de vida e justiça social. É garantir que milhões de brasileiros e brasileiras tenham mais tempo para viver, descansar, conviver com suas famílias e exercer plenamente sua cidadania.
Agora, cabe à sociedade manter a mobilização e cobrar de cada parlamentar uma posição clara. Não há mais espaço para silêncio, adiamentos ou manobras que impeçam a votação. Quem representa o povo deve ouvir o povo.
Essa luta não terminou. Ela continuará nas ruas, nas redes, nos locais de trabalho e dentro do Congresso até que o fim da 6×1 deixe de ser uma reivindicação e se transforme em direito. A vitória só estará completa quando o trabalhador e a trabalhadora tiverem, de fato, o direito de trabalhar para viver — e não viver apenas para trabalhar.
*Julimar é comerciário e presidente da Contracs-CUT

